Raiz Produções - 35 anos de cinema brasileiro
A Raiz Produções Cinematográficas, criada em 1974, tem como produtora a conceituada Assunção Hernandes. O parceiro na fundação da empresa, João Batista de Andrade, dá continuidade à sua carreira de produtor e diretor em nova empresa, a Oeste Filmes.
No comando da Raiz - que contabiliza hoje a realização de 26 longas metragens, entre produções e co-produções, nacionais e internacionais, ficção e documentário, 13 médias e cerca de 30 curtas – estão Assunção e Fernando Andrade, produtor, músico e finalizador.
Entre os prêmios conquistados ao longo dos anos, constam os de melhor filme, diretor e cenografia no Festival de Gramado (para Doramundo, em 1976), melhor filme no Festival de Moscou (para O Homem que Virou Suco, em 1979), Urso de Prata no Festival de Berlin (para A Hora da Estrela, em 1985), melhor filme, diretor, cenografia, fotografia, música e montagem no Festival de Gramado (para A Dama do Cine Shanghai, em 1987), melhor filme, diretor e roteiro também em Gramado (para De Passagem, em 2003).
História da Raiz Produções
Os fundadores da Raiz começaram a se envolver com produção e direção de filmes antes mesmo da criação da empresa. João Batista de Andrade teve experiências, iniciadas ainda na faculdade (Politécnica, da USP), com o Grupo Kuatro e, posteriormente, com a produtora Tekla. Como sócio-fundador da Raiz, afirmou sua carreira como cineasta e realizou grande parte de sua obra: longas, médias e curtas, com independência e reconhecido talento.
Assunção tomou contato com a produção cinematográfica também na universidade. Estudante de Ciências Sociais, na USP, foi convidada a dirigir o departamento cultural da União Estadual dos Estudantes, que produzia teatro e musicais. Pela demanda e interesse de alguns alunos da Poli, entre eles, Andrade, fez sua estréia na produção em cinema e realizou assim, o primeiro documentário da UEE, de São Paulo.
A experiência, que consistia também em levar os espetáculos a outros estados, no entanto, foi abruptamente interrompida com o golpe militar que encerrou, de um modo geral, as atividades das organizações estudantis. Mesmo assim, a incipiente carreira de Assunção como produtora começou a ser reconhecida ali mesmo. Por cerca de dez anos, em sua casa, ela atendeu jovens universitários e seus projetos fílmicos. Assunção administrava, dava dicas e conselhos. Depois disso, fora convidada a produzir uma série de documentários com temática ambiental. No entanto, pela oferta ter vindo de uma grande empresa (através de um jovem profissional, contemporâneo dos tempos de universidade), era necessária a constituição de uma empresa - para poder atender às exigências da contratante.
Assim, em 1974, nasceu a Raiz Produções Cinematográficas. O nome veio justamente da temática dos primeiros projetos. Assunção e João Batista de Andrade, então casados, instalaram a empresa nas dependências da casa em que moravam.
Apesar da diversas crises econômicas e políticas pelas quais o Brasil passou – indo da ditadura à luta pela democracia até se atingir finalmente o estado democrático de direito -, a produtora está a mais de três décadas em constante atuação e resistência no mercado brasileiro de cinema. Assunção fez parte da primeira diretoria do CBC – Congresso Brasileiro de Cinema (de 2000 a 2001) e foi presidente da entidade de 2001 a 2003. Além disso, presidiu o SICESP (Sindicato da Indústria Cinematográfica do Estado de São Paulo), de 2000 a 2003. À experiência adquirida ao longo desses 35 anos soma-se a flexibilização da empresa aos novos avanços tecnológicos e transformações técnicas e artísticas.
Nosso Catálogo de Filmes
Nos anos seguintes ao nascimento da Raiz foram realizados filmes para o movimento Cinema de Rua, como Restos (um curta de 10 minutos que trata da questão do lixão, em São Paulo, e da miséria daqueles que buscam ali algum meio de sobrevivência) e O Buraco da Comadre (curta que revela o convívio de determinada população com um enorme buraco instalado na região há mais de vinte anos). Para a televisão, outras obras são realizadas, como A Escola de 40 Mil Ruas, O Jogo do Poder, Wilsinho Galiléia e Migrantes. A coleção destes 12 curtas de registro social foram restaurados em 2007 através de Projeto de Restauro da Petrobrás.
Através da Raiz, Assunção passa a ser reconhecida como uma das mais importantes produtoras de cinema do País: a APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) lhe oferece um troféu pelo estímulo à produção paulista e a Air France lhe atribui o prêmio de melhor produtora do ano. Além disso, por dois anos consecutivos, Assunção recebe uma premiação no Rio Grande do Sul, pela melhor utilização de incentivos da Lei Sarney.
Em 1977, a produtora lança o segundo longa metragem de João Batista de Andrade, Doramundo (baseado em romance homônimo de Geraldo Ferraz) – o primeiro, Gamal, o Delírio do Sexo, é de 1969, realizado, portanto, antes da criação da produtora. Em 1979, o cineasta realiza O Homem que Virou Suco. Entre os quase dez prêmios conquistados, destaca-se a medalha de ouro concedida pelo Festival Internacional de Moscou e ainda o Prêmio Mérito Humanitário, outorgado pela organização de jovens daquele país.
Em 1982, a Raiz apresenta três novos trabalhos: o documentário 1932 / 1982 - A Herança das Idéias, uma produção especial feita para a Rede Globo; o média metragem Tribunal Bertha Lutz e o longa A Próxima Vítima (que marca a estréia de Mayara Magri no cinema), também dirigido pelo cineasta. Três anos depois, a veia jornalística de Andrade o faz registrar a repercussão da agonia e morte de Tancredo Neves e também o desespero vivido pelo povo no filme Céu Aberto, premiado no Brasil e exterior.
Também em 1985, a Raiz produz e lança a estréia na direção de Suzana Amaral, A Hora da Estrela, baseado em romance homônimo de Clarice Lispector. O longa ganha o Urso de Prata, no Festival de Berlim, é consagrado como o melhor filme no Festival de Havana, e sai vencedor absoluto do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: é premiado como melhor filme, direção, roteiro, atriz, ator, montagem, cenografia, fotografia, trilha sonora, atriz e ator coadjuvantes.
Em 1987, a Raiz produz e lança dois outros títulos de longa metragem: A Dama do Cine Shanghai, de Guilherme de Almeida Prado, e O País dos Tenentes, de João Batista de Andrade. O primeiro deles conquistou uma série de prêmios no Festival de Gramado – Cinema Brasileiro e, o segundo, outros tantos candangos no Festival realizado na Capital Federal (além de ter sido premiado no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro). No ano seguinte, acontece a primeira co-produção da história da Raiz: em parceria com a Cinema do Século XXI, produz Brasa Adormecida, de Djalma Limonji Batista. A experiência será repetida posteriormente com Lua Cheia (Alain Fresnot), Presença de Marisa (John Doo) e Real Desejo (Augusto Seva). Em 1988, a Raiz produz, através de dois curtas – Nariz e Arabesco – a estréia da diretora Eliane Caffé.
Na seqüência, realiza co-produções com parceiros internacionais: Solo de Violino, de Monique Rutler, Brasil / Portugal (via produtora Cinequanon), em 1990; e El Viaje, dirigido pelo cineasta argentino Fernando Solanas, selando uma experiência com a empresa Cinesur, que agregava a parceria de outros países, como Itália, Espanha, França, México, entre outros.
Esse filme conquistou, em Cannes, o prêmio técnico de fotografia para Felix Monti.
Em 1992, Almeida Prado volta a filmar e realiza, com a Raiz Produções Cinematográficas, Perfume de Gardênia. O longa, que tem Christiane Torloni e José Mayer no elenco principal, apresenta ainda Walter Quiroz, jovem ator conhecido da TV argentina. Esse longa dá continuidade às co-produções internacionais da Raiz, desta vez, associada a Jorge Estrada Moura, produtor originário da Colômbia, com produtora sediada na Argentina.
Perfume conquista inúmeros prêmios, entre os quais, os de melhor direção, roteiro, ator, atriz coadjuvante e direção de arte no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
No entanto, a importância de Perfume não é advinda apenas dos prêmios conquistados. O filme de Guilherme de Almeida Prado é bastante simbólico de um determinado período: com a política cultural adotada por Fernando Collor de Mello, quando Presidente, a produção audiovisual brasileira estancou. Em 1992, o filme citado foi o único longa de ficção rodado e concluído no País; representou, solitariamente, a cinematografia brasileira no Festival de Gramado. Foi então que o evento deixou de apresentar exclusivamente filmes brasileiros e ampliou a sua abrangência, tornando-se ibero americano.
Três anos depois, com políticas culturais em vigor, através de leis de incentivo, João Batista de Andrade filma O Cego que Gritava Luz, obra filmada totalmente em Brasília, nas margens do lago Norte, às margens do poder.
Em 1999, o diretor realiza nova ficção, O Tronco, projeto acalentado durante mais de 30 anos. Em 2001, a Raiz realiza mais uma co-produção e, em parceria com Jandaíra, de Florinda Bulcão e Roderaf, filma Eu Não Conhecia Tururu. No mesmo ano, produz a segunda direção de Suzana Amaral, Uma Vida em Segredo (que acaba revelando a atriz Sabrina Greve para o cinema). Em 2002, co-produz com a Oeste Filmes, nova produtora de João Batista de Andrade, a 12ª experiência na direção do cineasta, Rua Seis, sem Número. Em 2003, a Raiz Produções Cinematográficas produz De Passagem, estréia do diretor Ricardo Elias que, enquanto estudante, estagiou na produtora. O longa saiu consagrado do Festival de Gramado daquele mesmo ano, conquistando cinco troféus.
Em 2004, a empresa comemora 30 anos de existência e lança seu selo comemoratico, além de um projeto mensal de lançamentos em DVD de toda a sua produção audiovisual, tornando acessível ao público todo o seu acervo, que é constantemente procurado.
Selo Comemorativo - Raiz 30 Anos

Em 2006, o primeiro longa-metragem voltado ao público infantil da Raiz Produções é concluído. Com distribuição da Califórnia Filmes, o filme “A ilha do terrível Rapaterra”, que possui temática ambiental, teve a direção de Ariane Porto e fez uma bela carreira em mostras e festivais.
No mesmo ano a Raiz aceita mais um desafio: A empresa lança seu próprio selo de distribuição, a Raiz Distribuidora que marca presença relançando nos cinemas um de seus grandes clássicos, “O homem que virou suco”. O filme que passou por um longo processo de restauração pôde ser visto e revisto pelo público brasileiro e internacional, pois, além de ser exibido nas principais capitais do país, a cópia restaurada foi convidada a participar do 1º Mostra e Encontro do Cinema Brasileiro em Madri.
Em 2007 Guilherme de Almeida Prado une forças com a Raiz Produções e dessa parceria nasce o longa “Onde andará Dulce Veiga?” baseado na obra de Caio Fernando Abreu. Com produção de Assunção Hernandes e direção do Guilherme, o longa tem como protagonistas os atores Eriberto Leão, Carolina Dieckmann (ambos debutando na tela grande) e a atriz escolhida do diretor Maitê Proença.